Em pouco mais de três meses, o Parque Tecnológico Internacional de Ponta Porã transformou um prédio novo no endereço mais movimentado da inovação na divisa entre o Brasil e o Paraguai. E o que mudou ali talvez diga respeito a toda uma região.
Por muito tempo, a fronteira foi tratada como o ponto onde o mapa acaba. Ponta Porã, colada a Pedro Juan Caballero do lado paraguaio, aprendeu a conviver com esse lugar de quem fica esperando — esperando investimento, esperando atenção, esperando a vez. Em pouco mais de três meses, algo nessa lógica se inverteu. O Parque Tecnológico Internacional de Ponta Porã, o PTIn, abriu as portas em março e, desde então, deixou de ser o lugar que pede passagem para virar o lugar por onde os outros querem passar.
A virada começou nos dias 12 e 13 de março, quando o complexo foi inaugurado ao lado do Centro de Cultura, Empreendedorismo, Inovação e Memória do Tereré, o CEIMPP. Foram 1.200 pessoas em dois dias, entre autoridades dos três níveis de governo, universidades e lideranças regionais. Mas o número que de fato importa não é o da festa de estreia. É o da rotina que veio depois.
Desde a inauguração, o parque sustentou uma média de dois eventos por semana. São 26 ao todo: oficinas de inteligência artificial, rodas sobre a reforma tributária, dias inteiros dedicados a startups, mentorias, palestras sobre como falar em público. Pelo prédio passaram cerca de 2.100 pessoas, e mais de 400 saíram de lá com algum tipo de capacitação na bagagem. Para uma estrutura recém-aberta, é um ritmo que não combina com a imagem de cidade que espera sentada.
A prova mais difícil de contestar veio de um programa estadual de incentivo a novos negócios, o Centelha. Ponta Porã inscreveu 117 projetos — ideias de gente comum querendo transformar uma vontade em empresa. O volume foi suficiente para colocar o município em segundo lugar em todo o Mato Grosso do Sul, atrás apenas da capital. Não é o tipo de resultado que se explica por sorte ou por um prédio bonito. É gente que decidiu tentar.
Nada disso aconteceu sozinho. Em poucos meses, o PTIn firmou parceria com 15 instituições — universidades brasileiras e paraguaias, empresas, entidades como Sebrae, Senac, Senai e Fiems, além de governos e fundações. A palavra “internacional” no nome não é enfeite. A linha que separa dois países no mapa virou, ali dentro, um ponto de encontro: no Startup Day, representantes do Paraguai sentaram lado a lado com empreendedores brasileiros; numa manhã de maio, reitores e autoridades acadêmicas de instituições espalhadas por regiões de fronteira foram recebidos com café e cultura local antes de discutir cooperação.
Enquanto isso, do lado de fora dos muros, o parque também ganhava espaço. O perfil do PTIn nas redes passou de um milhão de visualizações em pouco mais de três meses, e o número de seguidores cresceu 562%. Mais de seis em cada dez pessoas que viram o conteúdo não acompanhavam a página — ou seja, era gente nova, de fora, descobrindo que existe inovação acontecendo nesse canto do estado. O alcance chegou a 23 vezes o tamanho da própria audiência. Para um órgão público de uma cidade de fronteira, é um tanto fora da curva.
Mas talvez o retrato mais fiel do que o PTIn se propõe a ser não esteja nos gráficos. Esteja nas pessoas que cruzaram a porta. Artesãos e artesãs que vieram aprender a divulgar o próprio trabalho na Fronteira Criativa. Estudantes de uma escola do assentamento Itamarati, que vieram conhecer laboratórios e ambientes que, até pouco tempo, pareciam reservados a outros lugares. Alunos do Jovem Aprendiz, visitantes de universidades, empresários tentando entender o que é, afinal, esse tal de ecossistema de inovação.
E há um detalhe que diz muito. O complexo carrega no nome a memória do tereré. Mesmo apostando em tecnologia, impressão 3D e inteligência artificial, o parque escolheu não esquecer de onde veio. As paredes pintadas, a arquitetura, a cultura regional incorporada ao prédio — tudo isso conversa com a ideia de que inovar não exige apagar a própria identidade.
Três meses é pouco tempo para qualquer veredito definitivo. Há muito a construir, e os números de hoje precisarão se sustentar amanhã. Ainda assim, algo já mudou de lugar. A fronteira que durante décadas se acostumou a olhar para o centro do país à espera de uma resposta começou, enfim, a dar as suas próprias. Deixou de pedir passagem. E, sem alarde, foi abrindo o caminho — não só para si, mas para uma região inteira que sempre soube que tinha mais a oferecer do que lhe pediam.






