Uma cidade que aprendeu a inovar — o salto de 57,8% para 78% na alfabetização é a história de um município que decidiu que cuidar começa cedo


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Numa manhã qualquer de Ponta Porã, uma menina de sete anos abre o caderno em cima da carteira. A professora pede que leia em voz alta a frase escrita no quadro. Ela respira fundo. Tropeça numa sílaba. Tenta de novo. E lê. Inteira. Sozinha.

Pode parecer pouco. Mas essa cena, repetida em centenas de salas de aula da rede municipal, é o coração de uma transformação silenciosa que vem acontecendo na educação da cidade nos últimos dois anos.

Em 2023, 57,8% das crianças de Ponta Porã chegavam ao fim do 2º ano alfabetizadas. Em 2025, esse número saltou para 78%.

O dado, frio no papel, ganha rosto quando se entra em uma escola. É a criança que aprende a escrever o próprio nome. É a mãe que recebe o caderno em casa e percebe, pela primeira vez, que o filho está acompanhando. É o professor que vê, no fim do ano, o resultado de meses tentando, errando e tentando de novo.

O que está por trás do número

O salto não aconteceu por acaso. Em 2024 e em 2025, Ponta Porã recebeu o Selo Ouro do Compromisso Nacional com a Alfabetização — reconhecimento concedido pelo Ministério da Educação às cidades que comprovam, com avaliação técnica, que estão alfabetizando suas crianças no tempo certo. Dois anos seguidos.

Para chegar ali, foi preciso método. Foram 870 professores capacitados ao longo de 2024 e 2025 — cada um tirando tempo da rotina para aprender novas estratégias e novas formas de chegar até a criança que ainda não decifrou o código das letras.

Três escolas da rede ganharam o Prêmio Escola Destaque do Programa MS Alfabetiza, do governo do estado: a Escola Municipal Rural Juvenal Fróes, em 2024; e as escolas Graça de Deus (também rural) e Lions Clube, em 2025. O reconhecimento vai para as 30 instituições com os melhores resultados de alfabetização do estado.

Mas os números contam apenas uma parte da história. Por trás de cada criança que hoje lê sua primeira frase com autonomia, existe uma rede inteira de cuidado tecida por muitas mãos: o professor que estuda, revisita suas práticas e recomeça; a formação continuada que acontece o ano todo. Por isso a Secretaria Municipal de Educação escolheu estar perto das escolas, dos professores, das crianças. Porque acredita que as grandes transformações nascem no chão da escola.

O cuidado de verdade começa cedo. Começa com os nossos pequenos.

O CEINF que esperou

A poucos quilômetros dali, no bairro Carandá, fica um prédio que muita gente em Ponta Porã esperou ver de portas abertas. É o Centro de Educação Infantil Profª Maria Aparecida de Almeida Dorneles, inaugurado pela atual gestão e hoje em pleno funcionamento. São 196 crianças atendidas em período integral.

Período integral. Essa é a palavra que muda a vida de uma família. É a mãe que pode trabalhar o dia inteiro sabendo que o filho está alimentado, cuidado e aprendendo. É o pai que pega o turno completo sem abrir mão da renda. É a criança pequena que tem, num só lugar, o aconchego e a estrutura que muitas casas, por mais amor que tenham, não conseguem oferecer sozinhas.

A inovação que ninguém aplaude

Há, porém, uma camada da educação de Ponta Porã que raramente vira manchete. Não tem prêmio internacional. Não rende post viral. Mas talvez seja a mais importante de todas.

Mais de 1.050 crianças e jovens com necessidades especiais são atendidos diariamente pela rede municipal. Cada um com a sua história, o seu tempo de aprender, o seu jeito de receber o mundo.

Por trás desse número estão salas adaptadas, materiais sensoriais, comunicação alternativa e professores especializados em Atendimento Educacional Especializado. Está, sobretudo, uma decisão pedagógica e política: a de que nenhuma criança fica para trás.

É o professor que adapta uma atividade para um estudante autista, que reorganiza o tempo da aula, que usa uma prancha de imagens com a criança que ainda não fala. Um trabalho silencioso, tecido dia após dia com paciência, conhecimento e afeto. Raramente vira foto. Quase nunca sobe ao palco das premiações. Mas floresce nos pequenos avanços — e muda a vida de uma família inteira.

Quando uma cidade decide cuidar de cada criança com a mesma qualidade, não está só fazendo educação. Está fazendo justiça.

Inovação é cuidado que chega na ponta

Voltemos à menina do início. Aquela que, com coragem, leu pela primeira vez uma frase inteira sozinha. Para ela, aquele momento foi só uma vitória pessoal numa manhã comum. Mas, por trás daquela leitura, existe uma rede inteira de pessoas que acreditou no seu potencial.

É por isso que, em Ponta Porã, inovação não é palavra de gabinete nem discurso de cerimônia. É a menina que aprende a ler no tempo certo. É a criança que fica alimentada e cuidada o dia inteiro no CEINF. É o estudante com deficiência que encontra uma escola pronta para recebê-lo.

É cuidado que começa no planejamento, passa por cada professor e chega na vida da família.

É inovação que chega na ponta.